Há mais ou menos dois a três meses comecei uma reforma aqui em casa. Uma reforma interior, daquelas que você quebra todas as paredes e começa tudo de novo e sabe que vai ser doloroso, demorado, difícil, e ainda por cima que a próxima construção deverá obrigatoriamente ser sob o mesmo terreno.
Então, depois de quebrar tudo, você vê quanto entulho terá para juntar e onde vai colocar isso, quem você vai chamar para te ajudar a jogar isso fora. Ainda tem paredes por quebrar, tem outras que parecem ter sido erguidas com aço, mas que devem ser derrubadas para o bem da casa. E na verdade, no fundo você sabe que esse trabalho será o mais solitário possível.
Mas quando você começa usufruir da corrente de ar que agora circula nessa nova "desconstrução" e respira isso de forma tão calma e segura, verá o quanto vale a pena cada minuto investido nisso.
Está tudo muito bom e tudo muito bem. Porém, esse mesmo engenheiro e arquiteto que é você, construiu mais duas casas iguaizinhas a essa, menores, mas iguais. Elas estão lá, todas tortas, cheias de labirintos que você mesmo ergueu achando que estava fazendo um bom trabalho, julgando que seria uma bela mansão quando o projeto fosse concluído. Mas não, agora enxerga que ela é apenas uma extensão daquela casa que você acaba de derrubar.
Confesso que isso é um pouco desesperador. E o detalhe é que essas "casinhas" não podem ser derrubadas a marteladas, nem um trator passar por cima, nem nada agressivo a ponto de rachá-la ao meio. A operação deve ser delicada, tirada tijolo a tijolo, raspandinho o cimento que grudou cada tijolinho e sabendo que também será uma operação meticulosa, dolorosa e que vai exigir tempo e muita, mas muitaaa paciência.
Pois é assim que vou ter que agir ao desconstruir tantos pensamentos ruim que eu mesma tinha e colocava na cabeça dos meus filhos sem nem perceber. Eu estava tão perdida no meu amargor, na minha tristeza, na minha dor, que embora eu soubesse e algumas vezes enxergasse que estava contaminando eles com isso, eu realmente não conseguia reagir e estancar aquele sangue. Era uma dor pulsante derivada de tanta mágoa, sentimentos de rejeição, conflitos intermináveis com as pessoas que eu julgava mais amar e que achava que poderiam ou deveriam me amar também, que ficava difícil enxergá-los em meio a isso tudo.
Mas o amor é sempre tão maior, tão sublime e tão poderoso que por meio dele percebi que aquilo tinha que ter um fim. Enxerguei que amar exigia uma excelência de mim que jamais presenciara em pessoas próximas, eu teria que buscá-la, caçá-la no fim do mundo se preciso fosse, mas teria que adaptar isso na minha vida o mais rápido possível. Estava condenando dois seres inocentes a conviver e viver para o resto da vida com uma dor que não lhes pertencia, com algo tão desconhecido quanto suas próprias vidas que estavam só começando.
E nesse resgate de mim mesma, foi que consegui entender que lá dentro morava um alguém muito lindo que fora sufocada por uma multidão de sentimentos apedrejantes, de pessoas tóxicas e sem nenhum sentimento de empatia e que não estava do lado de fora ou longe de mim, lá no passado. Não, todas elas estava muito mais próximas do que eu poderia imaginar. Dali vinha tudo que eu pensava, como agia e reagia, aprendi ali, bem pertinho. Por isso foi e é tão difícil reconstruir, porque está tão próximo, tão íntimo que refazer e reconstruir um coração limpo será uma batalha diária.
Mas essa batalha não tem volta, não tem retorno, não tem fim e nem arrependimento algum. Tenho cultivado alegria, bem estar e cada dia tem sido uma vitória. Tem dias que não é exatamente como eu almejava, mas ainda assim infinitamente melhor e superior a tudo que já vivi até aqui. Estou feliz e adiante vou seguir. Aspiro todo dia ser uma pessoa melhor, pra mim, para meus filhos e para quem convive comigo. Há outras batalhas me esperando, mas não vou fugir nem me amedrontar, não há motivo nem razão para isso. Há amor e compaixão na minha vida e no meu coração e é disso que vamos viver daqui pra frente. Se esse amor vai ignorar muitas coisas para poder ficar bem e algumas pessoas poderão se sentir mal com isso? Não sei e sinceramente não estou interessada nisso nesse momento, pois cada um terá que travar suas próprias batalhas, assim é a vida.
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